Curiosidades sobre sexualidade, normas sociais, princípios morais e leis
- Desde 1973 a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade de seu Manual de Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais. Em 1990 a Organização Mundial da Saúde a excluiu do Código Internacional de Doenças.
- No Brasil, somente em 1985 a homossexualidade foi desconsiderada doença pelo Conselho Federal de Medicina e em 1999 pelo Conselho Federal de Psicologia.
- O primeiro divórcio no Brasil foi efetivado apenas em 1977. Antes disso legalmente só era permitido o desquite, em que havia a quebra do vínculo conjugal, com separação do casal e de seus bens, mas sem a quebra do vínculo matrimonial. A família era vista como uma instituição fundamental à sociedade e a existência social da mulher estava condicionada à maternidade.
- A história da sexualidade brasileira é documentada desde a Colônia, quando começaram as trocas de conhecimentos, valores, práticas e crenças entre portugueses e índios (Ribeiro e Bedin, 2010). As regras portuguesas, desde o início, voltaram-se para o combate à nudez indígena e àquilo que simbolizava, ou seja, falta de vergonha e pudor (Priore, 2011). Para Ribeiro e Bedin (2010), as regras da época permitiam ao homem o sexo com sua esposa e com as índias e, mais tarde, com as negras, enquanto à mulher cabia o papel de submissa ao marido e à religião. O sexo destinar-se-ia apenas à reprodução, sendo impróprios o desejo e o prazer (Ribeiro, 1990, 2004). Buglione (2002) destaca que o empenho das instituições religiosas em reprimir a sexualidade devia-se a um ideário de aperfeiçoamento da raça brasileira, tomando-se como modelo a sociedade portuguesa cristã. Promoviase uma "mentalidade androcêntrica de subordinação, obediência e servidão da mulher em relação ao homem, incluindo a procriação de tantos filhos quanto 'Deus' e a 'natureza' determinarem" (Buglione, 2002, p. 7). Isso se manteve até o século XIX, quando o discurso religioso foi substituído pelo médico e a sexualidade começou a ser tratada como caso de higiene e de saúde (Ribeiro, 2004). Conforme Priore (2011), no século XIX, apenas as ciências estavam autorizadas a falar sobre sexo, disso nasciam as primeiras classificações científicas de certo e de errado e as regras para disciplinar as relações sexuais. A delimitação entre bom e mau comportamento sexual instituiu que as mulheres que reconheciam praticar e/ou gostar do ato sexual deveriam ser classificadas como prostitutas ou loucas. Igualmente considerada como anormal estava a homossexualidade, que deixou de ser pecado e "alcançou" a condição de doença, passível de tratamento. Quanto à masturbação, ela tornou-se objeto de pesquisas, especialmente por ser considerada responsável por enfermidades terríveis, notadamente entre mulheres (Priore, 2011). No final do século XIX, o crescimento da população urbana do Brasil levou ao surgimento da preocupação com questões de saúde, higiene e reprodução. O Estado precisava sustentar suas transformações políticas e sociais, consequentes à República, iniciando seu diálogo com a medicina, interessada em propagar ideais higiênicos (Almeida, 2009; Ribeiro, 2004). A educação sexual de então pregava castidade e auto repressão às mulheres; aos homens, recomendava-se a continência, principalmente após "conseguir engravidar" a companheira. Todavia, a frequência aos bordeis era maciça, justificada como necessária à manutenção da pureza das esposas (Priore, 2011).
- Romero (1998) afirma que não existe uma única definição do que é sexualidade e, por consequência, não existe um só modelo padrão do que se possa chamar de educação sexual. Na vertente médico-biologista repressora, o ser humano é reduzido a uma estrutura organizada que apenas reproduz e perpetua sua espécie. São retirados dessa vertente todos os componentes sócio-históricoculturais da construção da sexualidade humana. “O discurso médico, matriz da interpretação biologista, reforça o mesmo discurso conservador e institucional presente na sociedade brasileira”. (NUNES,1996, p.141). Já a vertente normativo-institucional, como seu próprio nome diz, é determinada por uma rigorosa moral repressiva institucional, misturando, ecleticamente, mecanismos de ordem científica e conceitos religiosos morais, fortalecendo-se para fazer frente à chamada “revolução sexual”. Defende a promoção dos papéis sexuais tradicionais do modelo ocidental cristão e a propagação do casamento patriarcal monogâmico. É intolerante com práticas sexuais alternativas e condutas sexuais não procriativas. A vertente terapêutico-descompressiva é baseada em uma concepção banalizada da psicanálise e dos referenciais da psicologia. São expressões dessa vertente: consultórios televisivos, confissões compulsivas no reino do “eu acho...” São utilizadas técnicas e metodologias no encaminhamento do sexo individual e coletivo, em propostas de “autoajuda” ou de receitas de como viver a sexualidade. Coloca-se tudo como uma questão “do que dizer na hora certa”. Reflete a visão dos seres humanos como “trepadores compulsivos”, como atletas sexuais. Nessa, a sexualidade é vista como uma questão de produtividade e técnica. Revistas apresentam como ter orgasmo, como achar o ponto G, como enlouquecer seu homem, sua mulher etc. É obrigatório deixar de ser virgem... É obrigatório transar por transar... É o consumo de relações: um consome o outro. Homem, mulher, criança: todos são usados como mercadorias sexuais. Naturaliza-se o sexo como mercadoria, uma vez que ele se apresenta como mecânico, deserotizado. É uma aparente liberalização e descompressão das práticas sexuais.
Precisamos nos desintoxicar dessas regras externas para entender, de forma limpa e autêntica, quem realmente somos. Viver a sexualidade sem culpa significa resgatar essa força não como um produto desenhado pela sociedade, mas como a expressão máxima de nossa potência viva. Afinal, somos seres humanos e espirituais.
Por isso, a escolha de viver a sexualidade dentro de um casamento, com múltiplos parceiros ou até mesmo através de um celibato deve ser estritamente individual. Você não está bloqueada porque resolveu não transar. Não é antiquada porque pensa em casar virgem. E não é menos digna por ter vários parceiros.
O que o outro pensa sobre a sua intimidade perde o sentido quando você assume as rédeas da sua própria energia. A única linha vermelha que realmente importa cruzar é aquela que fere o seu próprio equilíbrio. O sinal de alerta só acende se a sua paz interior for sufocada, se a sua prosperidade for bloqueada ou se as suas ações causarem danos a alguém. Fora isso, toda escolha vivida com consciência, verdade e afeto não é apenas legítima — é um ato de liberdade: o direito de direcionar a nossa própria energia vital da melhor maneira possível, respeitando o ritmo, a verdade e a sacralidade que cabem a cada um de nós.
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