Pombagira das Rosas: muito além do amor e da sedução

 Pombagira das Rosas: muito além do amor e da sedução

Quando se fala em Pombagira, ainda existe uma tendência de reduzir essas entidades a amor, sedução, sexualidade e conquista.

Quando falamos especificamente em Pombagira das Rosas, essa associação pode ficar ainda mais forte: rosas, feminilidade, beleza, magnetismo e relacionamentos.

Mas esse é apenas um pedaço de um simbolismo muito mais amplo.

A rosa possui perfume, beleza e delicadeza, mas também possui espinhos. Ela floresce, atrai, abre-se — e, ao mesmo tempo, possui seus próprios mecanismos de proteção.

Talvez essa seja uma das imagens mais interessantes para começarmos a compreender a Pombagira das Rosas.

Antes de tudo: não existe uma única definição

É importante dizer que não existe uma descrição universal da Pombagira das Rosas.

Umbanda, Quimbanda e diferentes casas, linhagens e tradições podem compreender nomes, entidades e falanges de maneiras distintas.

Em determinados contextos, “Das Rosas” pode identificar uma entidade. Em outros, pode estar relacionado a uma falange ou forma específica de trabalho.

Por isso, não considero adequado criar uma espécie de “ficha técnica” e afirmar que toda entidade que se apresenta com esse nome necessariamente trabalha da mesma maneira, utiliza os mesmos elementos ou possui exatamente as mesmas características.

Quando falamos sobre Pombagira, a tradição da casa e a própria entidade importam.

🌹 O que a rosa pode nos ensinar sobre essa Pombagira?

Existe uma dualidade muito bonita na rosa:

ela é delicada sem ser indefesa.

Isso nos ajuda a sair daquela representação simplista da Pombagira como uma entidade cuja função seria exclusivamente proporcionar conquistas amorosas.

A Pombagira das Rosas pode estar relacionada, dependendo da tradição, a questões de magnetismo, autoestima, relacionamentos, valorização pessoal, prosperidade, abertura de caminhos e poder feminino.

Mas falar de amor aqui não significa necessariamente perguntar:

“Como faço para essa pessoa ficar comigo?”

Pode significar algo muito mais profundo:

Por que aceito tão pouco?

Por que continuo presa a determinada relação?

O que preciso recuperar em mim depois dessa experiência?

Por que desejo alguém que não me oferece reciprocidade?

O que preciso aprender sobre meus próprios limites?

Nesse sentido, o trabalho deixa de estar exclusivamente relacionado a conquistar o outro.

Passa também pela capacidade de reconquistar a si mesma.

Pombagira não é simplesmente uma entidade “do amor”

Esse talvez seja um dos maiores reducionismos quando se fala sobre Pombagiras.

Dependendo da entidade e da tradição, seus campos de atuação podem envolver proteção, caminhos, relações humanas, justiça, questões materiais, autonomia, enfrentamento de situações e fortalecimento pessoal.

Relacionamentos fazem parte da vida humana e naturalmente podem aparecer.

Mas existe uma diferença enorme entre trabalhar relações e existir exclusivamente para “trazer homem” ou “trazer mulher”.

A própria relação amorosa pode ser observada por perspectivas completamente diferentes.

Às vezes abrir caminhos no amor significa aproximar.

Em outras situações, pode significar justamente retirar do caminho aquilo que impede alguém de seguir.

🌹 A mulher que deseja também é a mulher que escolhe

Existe um aspecto do arquétipo da Pombagira das Rosas que considero especialmente interessante.

Ela não representa apenas a mulher que deseja ser escolhida. Ela representa a mulher que também escolhe.

Essa mudança parece pequena, mas transforma completamente o significado.

Existe desejo, mas existe discernimento.

Existe abertura, mas existe limite.

Existe magnetismo, mas não necessariamente submissão.

Existe capacidade de amar sem que isso precise significar abandonar a própria dignidade.

A rosa novamente explica muito bem essa ideia:

ela pode estar aberta sem deixar de possuir espinhos.

Feminilidade não é fragilidade

As Pombagiras também desafiam uma ideia muito antiga de que força feminina precisa significar ausência de sensualidade ou que feminilidade precisa significar fragilidade.

Uma mulher pode ser feminina e firme.

Pode desejar e estabelecer limites.

Pode ser sensual sem estar disponível.

Pode amar profundamente e ainda assim decidir ir embora.

Pode acolher sem aceitar tudo.

Pode dizer sim.

E pode dizer não.

Por isso, uma Pombagira das Rosas não precisa ser compreendida através da caricatura de uma figura permanentemente sedutora ou hipersexualizada.

Dependendo de como se apresenta em determinada casa, pode ser descrita como elegante, firme, observadora, feminina e profundamente conhecedora das relações humanas.

🌹 Das Rosas e Rosa Caveira não são necessariamente a mesma entidade

Outro cuidado importante é não transformar nomes semelhantes em entidades automaticamente equivalentes.

Pombagira das Rosas, Rosa Caveira, Maria Padilha das Rosas, Rosa Vermelha e outras denominações não devem ser tratadas indiscriminadamente como nomes diferentes para a mesma coisa.

Rosa Caveira, por exemplo, costuma aparecer em determinadas tradições associada a uma simbologia mais relacionada a transformação, encerramentos, proteção, descarrego, ancestralidade e campos ligados à morte simbólica e à renovação.

A caveira não precisa representar morte física.

Pode representar aquilo que terminou.

Aquilo que precisa ser enterrado.

Aquilo que precisa deixar de existir de determinada maneira para que alguma transformação aconteça.

Já na simbologia associada à Pombagira das Rosas, encontramos com maior frequência florescimento, magnetismo, relações, desejo, valorização, abertura e limites.

Existem pontos de encontro entre esses universos, naturalmente.

Mas não são necessariamente a mesma manifestação.

E Maria Padilha das Rosas?

O mesmo cuidado vale para Maria Padilha das Rosas.

Maria Padilha é um nome encontrado em diferentes falanges e identificações dentro das tradições que trabalham com Pombagiras.

Podemos encontrar denominações diferentes associadas a Maria Padilha conforme a casa e a linhagem.

Por isso, o fato de existir uma Maria Padilha “das Rosas” não significa que toda Pombagira que se apresente como “Das Rosas” seja necessariamente Maria Padilha.

Novamente:

o nome sozinho não conta toda a história.

Perfume e espinho

Talvez seja justamente essa combinação que torne o simbolismo das rosas tão interessante.

A rosa atrai sem precisar perseguir.

Floresce quando encontra condições.

Possui perfume, mas também possui proteção.

Pode ser oferecida como demonstração de amor, mas seus espinhos lembram que amor e limite não são conceitos incompatíveis.

E é possível transportar essa imagem para inúmeras situações humanas.

Amor sem submissão.

Desejo sem dependência.

Generosidade sem anulação.

Feminilidade sem fragilidade.

Abertura sem ausência de proteção.

Pombagira das Rosas é muito mais do que conquistar alguém

Talvez uma das maneiras mais pobres de compreender uma entidade dessa natureza seja enxergá-la exclusivamente através da pergunta:

“Ela pode trazer determinada pessoa para mim?”

Existem questões muito maiores.

Quem você se tornou dentro das suas relações?

Você reconhece o próprio valor?

Sabe estabelecer limites?

Consegue distinguir desejo de dependência?

Está tentando fazer florescer algo que já terminou?

Sabe reconhecer quem merece entrar e quem precisa sair dos seus caminhos?

É nesse ponto que o simbolismo deixa de ser apenas bonito e começa a se tornar profundo.

A Pombagira das Rosas pode nos remeter ao amor, ao desejo, à beleza e ao magnetismo.

Mas a rosa carrega uma lição que vai muito além disso:

não é preciso arrancar os próprios espinhos para poder florescer.


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